Um relatório publicado na quinta-feira, 21, pela firma de pesquisa e análise de dados Arcane Research apresenta a anatomia dos eventos em série que derrubaram o preço do Bitcoin (BTC) em até 48% nos últimos dois meses.

Ao todo, as grandes entidades do mercado liquidaram 236.237 BTCs no período, equivalentes a mais de US$ 5 bilhões em Bitcoin, em uma capitulação de proporções nunca antes testemunhadas pelo mercado.

O valor diz respeito exclusivamente a vendas maciças de Bitcoin registradas no período, muitas delas fruto de liquidações forçadas devido a crises de liquidez e excesso de alavancagem.

236.237 BTC.

Essa é a quantidade conhecida de Bitcoins vendidos desde 10 de maio por grandes instituições. A maior parte das liquidações está relacionada a vendas forçadas, mas algumas não.

— Vetle Lunde (@VetleLunde)

Do Kwon e a Lula Foundation Guard

“Tudo começou com Do Kwon e a Luna Foundation Guard (LFG)”, que em um intervalo de tempo muito pequeno liquidou a reserva de 80.000 BTCs acumulados para garantir a paridade do TerraUSD (UST), a stablecoin algorítmica do ecossistema Terra (LUNA).

A reserva que vinha sendo amplamente divulgada pelo CEO do Terraform Labs como o alicerce de sua stablecoin “verdadeiramente descentralizada” vinha sendo abastecida desde o início de janeiro e em 5 de maio atingira o impressionante montante de 80.000 BTC, fazendo da LFG uma das maiores baleias do Bitcoin.

Equivalentes a aproximadamente US$ 3 bilhões na ocasião, os 80.000 BTC foram despejados no mercado em 10 de maio, em uma tentativa desesperada de resgatar a paridade do UST com o dólar depois que o mecanismo de queima e emissão de LUNA e UST falhou.

Dois dias depois, ambas as moedas colapsaram e uma crise de proporções épicas começou a se espalhar por todo o mercado de criptomoedas, afetando investidores de todas as classes, desde varejistas até grandes instituições.

Mineradores

Ao final de maio, uma das entidades mais importantes para a definição do preço de mercado do Bitcoin deu sinais de capitulação. Naquele mês, os mineradores de Bitcoin venderam mais de 100% de sua produção mensal, o que significa que algumas das principais empresas do setor precisaram recorrer às suas reservas para manterem-se em operação.

Tesla

O investimento inicial da Tesla em Bitcoin foi feito com grande alarde e celebração em fevereiro de 2021, quando o CEO da empresa, Elon Musk, anunciou a compra de mais de 43.000 BTC. Igualmente, a venda de 10% do patrimônio da Tesla em BTC com um lucro líquido de US$ 126 milhões, em março daquele ano, serviu para “provar a liquidez do Bitcoin como uma alternativa ao dinheiro no balanço da empresa”, disse Musk na ocasião.

Agora, a revelação da venda de 75% das reservas de Bitcoin da Tesla surgiu como uma nota de rodapé do balanço patrimonial da empresa relativo ao segundo trimestre deste ano. Não é possível precisar exatamente quando ela aconteceu, mas o relatório da Arcane Research presume que deva ter ocorrido durante o turbulento mês de maio, ao preço médio de US$ 32.209. Ao todo, a empresa de carros elétricos teria vendido 29.060 BTC.

“Esses números são baseados em estimativas anteriores sobre as compras iniciais de BTC (preço médio de US$ 34.841) e a venda de 10% de seu BTC para “testar a liquidez” no primeiro trimestre de 2021. Assumindo que esses 10% foram vendidos por US$ 50.000, o novo preço médio dos BTCs da Tesla fica em torno de US$ 33.325, o que significa que a Tesla liquidou suas posições no segundo trimestre deste ano com um pequeno prejuízo”, diz o relatório.

Crise sistêmica

Em seguida à divulgação dos números da inflação de maio nos EUA em 10 de junho, o preço do Bitcoin sofreu um novo baque e começou sua descendente da região de US$ 30.000 para a mínima de US$ 17.622 uma semana depois.

Nesse meio tempo, as vítimas até então ocultas do colapso do Terra começaram a se tornar conhecidas. Em 12 de junho, a plataforma de empréstimos Celsius anunciou a suspensão dos saques dos clientes. No dia seguinte, surgiram os primeiros rumores de insolvência do fundo de capital de risco Three Arrows Capital, que teve impactos diretos sobre diversos players do mercado.

“Após o colapso, os credores da 3AC tentaram se proteger para reduzir os riscos da exposição ao fundo cobrir os buracos em seus balanços patrimoniais, ao mesmo tempo que liquidavam posições da 3AC, causando uma nova onda de vendas incendiárias”, diz o relatório da Arcane Research.

Na esteira dos acontecimentos recentes, o ETF de Bitcoin da gestora canadense Purpose reduziu praticamente pela metade os ativos sob sua gestão em apenas quatro dias, despejando mais 24.510 BTC no mercado.

Para completar, ao final do mês, os mineradores finalmente deram sinais de capitulação com a venda de 14.600 BTC, pouco menos que o equivalente a 400% de sua produção em junho.

Este é o resumo dos eventos da brutal capitulação que será lembrada como o clímax do inverno cripto de 2022.

O relatório da Arcane Research conclui que a temporada de liquidações forçadas possivelmente está encerrada. No curto prazo, a correlação com o mercado de ações deve ditar o comportamento da ação de preço do BTC.

Nesta sexta-feira, o par BTC/USD vem enfrentando uma forte resistência perto de US$ 24.000, embora nas últimas 24 horas, o preço do BTC tenha recuperado lentamente o terreno perdido após a notícia de que a Tesla havia vendido grande parte de suas participações em BTC.

Na tarde desta sexta-feira, o Bitcoin está cotado a US$ 23.117, e mantém-se estável, registrando uma baixa intradiária de 0,1%, de acordo com dados do CoinMarketCap.

Fonte: Cointelegraph