O famoso índice do dólar (DXY), ao qual compara a força da moeda norte-americana contra uma cesta de moedas (Euro , Iene, Libra esterlina, Dólar canadense, Coroa sueca, Franco suíço), se consolidava na região dos 110 pontos na terça-feira (06), região visitada pela última vez no fim de 2002.

Comumente, o DXY é utilizado como uma medida de aversão à risco pelos investidores, uma vez que, em momentos de turbulências nos cenários econômico e geopolítico mundial, os agentes do mercado tendem a buscar segurança na moeda de reserva internacional, afim de preservar o seu patrimônio e evitar tomar riscos nos mercados acionários. Por essa razão, em geral, existe uma correlação negativa entre o DXY e as bolsas, como é possível observar na imagem abaixo (com exceção de momentos específicos em que a correlação passa a ser positiva).

Do que o mercado tem medo?

  • Aperto monetário do Federal Reserve: Desde o ano passado, a autoridade monetária dos Estados Unidos “engrossou” o tom contra a inflação, iniciando no início de 2022 um ciclo de alta da taxa básica de juros, finalizando o seu programa de ativos que injetou uma grande quantidade de liquidez na economia dos EUA (QE) e iniciando o processo de escoamento de seu balanço patrimonial (QT). Desde que o mercado assimilou que o Fed não deverá cometer o mesmo erro de 2018, o principal benchmark da bolsa americana, o S&P 500 já caiu mais de 20% desde a sua alta histórica. Além disso, a narrativa de uma recessão nos EUA vem se tornando cada vez mais real, depois que o país registrou dois trimestres consecutivos de perdas em seu PIB.
  • Conflito entre Rússia e Ucrânia: A invasão russa ao país vizinho gerou grandes prejuízos não só para os dois países envolvidos diretamente no conflito, mas também para toda a Europa, com o preço das commodities energéticas disparando e alimentando ainda mais a inflação que já dava sinais de descontrole antes da guerra começar de fato. Em resposta a agressão, os países da zona do euro e membros da OTAN decidiram sancionar o gás russo (apesar de a grande maioria desses países possuírem sua matriz energética comprometida com esta commodity). O aumento dos temores de uma recessão na zona do euro impulsionada pela escassez de energia, somada ao tardio início do ciclo de alta de juros por parte do BCE afugentam capitais das principais bolsas europeias.
  • Conflito entre Taiwan e China: O medo de que a escalada do conflito entre China e Taiwan resulte em uma intervenção americana no conflito, e por sua vez, em uma terceira grande guerra, tem balançado os mercados financeiros, com a China continental continuamente invadindo o espaço aéreo da pequena ilha. Não só isso, uma eventual guerra entre China e Taiwan teria grandes consequências para a oferta mundial de semicondutores.
  • Mais lockdowns na China e a crise das cadeias de suprimentos: A política de COVID zero do governo chinês tem resultado em portos congestionados, entregas atrasadas e queda no preço de commodities como: o minério de ferro e o petróleo. A questão chave é a de que, a crise da cadeia de suprimentos poderá reascender o fantasma da inflação por um canal de escassez de oferta, deixando nas mãos dos bancos centrais, em especial o Fed, o papel de apenas evitar o contágio do choque em todo o nível de preços da economia.
    Existe um amplo debate entre os economistas a respeito da postura dos bancos centrais ante um choque de oferta, pois, em teoria, isso estaria fora do controle das autoridades monetárias. Por outro lado, grande parte dos banqueiros centrais decidem agir de forma a conter o contágio do nível de preços, desaquecendo a demanda através do aumento de juros e não o choque.

O DXY poderá chegar até 120 pontos até o fim do ano

Depois do último simpósio de Jackson Hole, onde o ‘chairman’ do Fed, Jerome Powell, “jogou um balde de água fria” no mercado, afirmando que o BC americano deverá seguir elevando juros e segurando a taxa básica em um patamar alto até que a inflação retorne a meta de 2%, é possível que o índice do dólar possa revisitar os 120 pontos caso os fundamentos sigam indicando uma fuga de capitais dos ativos de risco e isso cause um rompimento da resistência da região dos 110 pontos (no gráfico mensal).

Além disso, ainda mais que a inflação siga desacelerando nos próximos meses, ela ainda está muito distante dos 2%. Seria coerente por parte do Fed avançar até os 3,5%-4% até o fim do ano e seguir com pequenos aumentos em 2023, visto que esta é a taxa neutra estipulada pela maioria dos membros do FOMC.

Para a reunião de setembro do Comitê de Política Monetária dos EUA, os traders já estão em sua grande maioria apostando em uma nova elevação de 75 pontos-base, o que é até então, considerado um movimento hawkish. A condicional para esse movimento será o CPI de agosto, que deverá ser divulgado no próximo dia 13 de setembro.

Como o criptomercado poderá se comportar?

O Bitcoin segue altamente correlacionado com as bolsas americanas sendo ainda muito sensível a movimentações na taxa básica de juros dos EUA, caso esse cenário seja concretizado, não será nenhum espanto se o criptoativo visitar níveis próximos a US$ 13.000 – US$ 14.000.