A taxa anual de inflação dos EUA, de acordo com o Índice de Preços ao Consumidor (CPI), ficou em 8,5% em março, ligeiramente acima da expectativa mediana dos economistas, que era de uma leitura de 8,4% e superior à taxa anual de fevereiro de 7,9%. A taxa de inflação mensal ficou em 1,2%, em linha com a previsão mediana do economista para uma leitura de 1,2% e acima dos 0,8% de fevereiro.

Já a inflação anual medida pelo CPI núcleo, ficou em 6,5% um pouco abaixo dos 6,6% esperados pelo mercado e acima dos 6,4% de fevereiro. Já a inflação mensal medida pelo CPI núcleo subiu 0,3%, quando era esperado pelo consenso os mesmos 0,5% de fevereiro.

O que é o CPI?

O CPI é uma sigla para ‘Consumer Price Index’, trata-se do Índice de Preços ao Consumidor norte-americano, seu papel é captar as variações mensais e anuais no nível de preços, que por definição é a taxa de inflação. O CPI é “calculado” de duas formas, uma considerando todos os preços da economia e outra retirando os efeitos dos “preços voláteis” (energia e alimentos), que é o núcleo do CPI (ou CPI núcleo).

Nesta terça-feira (12), foi divulgado pelo ‘Bureau of Labor Statistics’ o CPI referente ao mês de março, apresentando um aumento de 8,5% na base anual, acima da expectativa mediana do mercado que era de 8,4% e acima da leitura de 7,9% em fevereiro. Esse é o primeiro mês em que o índice capturou o aumento dos preços das commodities em virtude do conflito Rússia-Ucrânia, uma vez que no mês de fevereiro, o índice havia sido fechado antes da invasão.

O papel do FED

As duas principais “missões” do Federal Reserve são: Perseguir o pleno emprego e a estabilidade de preços. Por definição, essas duas metas são conflitantes, uma vez que existe um ‘tradeoff’ entre inflação e desemprego, isto é, para se obter altos níveis de emprego, a autoridade monetária deve tolerar maiores taxas de inflação.

O atual nível de inflação em território norte-americano, está muito distante da meta de 2%, e é o maior desde os anos 80, portanto, é a hora em que o BC americano deve agir, uma vez que o mercado de trabalho está extremamente apertado, com uma taxa de desemprego de cerca de 3,8%, o que é muito próximo aos níveis pré-pandêmicos, além dos robustos números de criação de emprego dos últimos ‘Payrolls’.

O FED, já iniciou a sua reação à inflação crescente no país, aumentando a taxa básica de juros dos EUA em 25 pontos base na última reunião do Conselho de Política Monetária (FOMC), que aconteceu no mês passado, além de adotar um discurso cada vez mais agressivo ante a inflação, com diversos membros do FOMC se posicionando favoráveis à aumentos de 50 pontos base e o início da redução do balanço patrimonial, na reunião de maio, à depender da conjuntura.

O impacto nos mercados

Em resumo, dada a inflação crescente e um mercado de trabalho robusto, além de uma recuperação razoável do PIB norte-americano, o FED afim de cumprir seu mandato, deverá agir subindo a taxa de juros básica (com aumentos de 25 ou 50 pontos base) e reduzindo o balanço do banco (foi sinalizado na última ata da reunião do conselho, uma redução da ordem de 95 bilhões de dólares mensais), o que por sua vez poderá impactar negativamente os mercados de risco dada a violenta retirada de liquidez da economia. Investidores nesse cenário, passam a enxergar ativos ligados ao dólar como mais atrativos, como por exemplo os títulos do Tesouro dos EUA, dado o baixo risco e alta rentabilidade.

Porém vale destacar, que alguns analistas acreditam que o CPI de março, marcou o pico da inflação nos Estados Unidos, e que essa poderá diminuir nos próximos meses, fazendo os membros do FOMC talvez “repensar” sua estratégia de política monetária.

Falando especificamente do criptomercado, uma alta taxa de inflação em um contexto em que há perspectivas de aumento dos juros por parte da autoridade monetária, em geral, impacta de maneira negativa as criptomoedas, pois a renda fixa se torna mais atrativa, assim como acontece no mercado acionário. Por outro lado, uma alta inflação em um contexto em que não há perspectivas de aumento da taxa de juros, pode ser positivo, pois os agentes passam a enxergar as ‘cryptos’ como uma maneira de proteger o seu poder de compra.

DXY cai abaixo dos 100 pontos, logo após a divulgação do CPI

O DXY, índice que compara o dólar norte-americano com uma cesta de moedas, afim de medir a força da moeda dos EUA, caiu abaixo dos 100 pontos logo após dados da inflação dos EUA virem levemente acima das expectativas dos analistas e abaixo do núcleo da inflação mensal.

É válido ressaltar que, a queda do DXY para patamares inferiores aos 100 pontos durante os primeiros momentos da sessão de terça-feira, pode apenas significar uma correção da tendência altista que o índice tem apresentado nos últimos dias.

Além de medir a força da moeda norte-americana, o DXY também serve como uma ‘proxy’ para medir a aversão ao risco no mercado, uma vez que, o dólar é a moeda de reserva mundial e é vista em tempos de turbulência como um “porto seguro”. Portanto, um DXY em queda, pode significar um aumento do apetite ao risco, levando os investidores a alocarem recursos em ativos de risco.

Gráfico US Dollar Currency Index. Fonte: TradingView

A possível interpretação do mercado com relação ao CPI

O índice preços ao consumidor norte-americano (CPI), divulgado na manhã do dia 12 de abril, veio levemente acima do esperado na base anualizada, era esperado um aumento de 8,4% na inflação, e o valor observado foi de 8,5%. Porém quando olhamos especificamente núcleo da inflação mensal (desconsiderando preços voláteis), este avançou 0,3%, quando era esperado a manutenção nos níveis de fevereiro, um aumento da ordem de 0,5%.

A interpretação geral do mercado, parece ter sido a de que a inflação pode ter chegado no pico, ou está muito próxima deste, o que gera expectativas de que, nos próximos meses o nível de preços possa desacelerar (desconsiderando riscos sistemáticos, como por exemplo, um aumento das tensões no leste europeu, ou o aparecimento de uma nova variante do coronavírus).

O que poderá acontecer?

Caso a queda no núcleo da inflação, se traduza efetivamente em uma queda nos índices de inflação gerais, e esta seja sustentada, é possível que o Fed não precise realizar um aperto monetário tão agressivo, quanto o que está sendo sinalizado em discursos de membros do FOMC e na última ata da reunião do Comitê de Política Monetária. A diminuição da magnitude da retirada de liquidez da economia dos EUA, poderia minimizar o impacto da política monetária contracionista nos mercados de ativos de risco (ações e criptoativos).

Importante

Porém, vale destacar que este é um cenário ainda em construção, e que, apesar do relativo clima de otimismo logo após a divulgação do CPI, a orientação de política monetária do Fed ainda é ‘hawkish’. É necessário cautela e uma boa gestão de risco para enfrentar a volatilidade do mercado, devido a precificação de futuros movimentos do banco.

Kleiton Luna • Analista Yellow Crypto