Um investidor despercebido olharia para headline do último CPI norte-americano e chegaria à conclusão que, apesar de o índice ter frustrado as projeções do mercado, ele ainda demonstra que a inflação segue recuando. O grande ‘pulo do gato’ está na leitura do núcleo da inflação, que é um subíndice que calcula as variações dos preços excluindo energia e alimentos. Na última leitura, o núcleo da inflação americana subiu inesperadamente, mostrando que o fenômeno inflacionário norte-americano pode estar em processo de disseminação por todo o nível de preços, o que assusta o Fed, não é para tanto que as apostas para 50 bps são totalmente irrisórias depois da divulgação do índice, como é possível observar na figura abaixo retirada no dia 16/09 da plataforma da CME Group.

75 bps ou 100 bps? Eis a questão

O mercado parece totalmente convicto de que uma alta de 75 bps é o cenário mais provável. Porém, não seria de se espantar uma alta de 100 bps “inesperada”, devemos ter em mente que, os choques de oferta que causaram a inflação já estão criando raízes por todo o nível de preços, o que exige uma postura altamente agressiva por parte da autoridade monetária norte-americana que deverá nos próximos meses, caso o núcleo da inflação siga em trajetória de crescimento, buscar cada vez mais contrair a demanda agregada, seja por um possível choque de juros ou pelo aumento para os tão temidos US$ 95 bilhões mensais do Quantitative Tightening (QT), ou ambas as ferramentas sendo utilizadas em conjunto (evidentemente que com ponderações a depender dos dados).

Apesar de tudo, 75 bps ainda parece o cenário mais provável, mas é necessário pragmatismo e uma boa gestão de risco para estar posicionado no dia 21 em caso de uma alta de 100 bps.

A interpretação não é linear!

Quando observamos de maneira cautelosa o relatório do BLS (Bureau Labor of Statistics), observamos que a queda da inflação tem sido motivada pela queda no preço dos combustíveis, em especial a gasolina, isso se deve ao fato de que o preço do barril de petróleo experimentou uma queda substancial nos últimos meses. Por outro lado, os preços da energia elétrica, gás natural e imóveis, seguem em trajetória de crescimento.

Além disso tudo, o mercado de trabalho norte-americano segue apertado, com o relatório JOLTs (figura abaixo) e o Payroll mostrando níveis incríveis no que se refere a taxa de criação e ocupação de postos de trabalhos. Com um mercado de trabalho desequilibrado, em que muitos economistas e analistas dizem haver cerca de dois postos de trabalho para cada cidadão americano, os salários seguem pressionando a inflação por esse canal de transmissão extremamente perigoso (apesar de defasado).

O que poderá nos esperar no futuro?

O mercado está diante de um contexto “novo” para muitos traders, depois de anos e anos de juros negativos e uma alocação ineficiente de recursos, os agentes parecem espantados com a aplicação da teoria macroeconômica básica sobre a estabilização de preços e a imposição da realidade. O romance do mercado financeiro e o Fed parece está próximo de um fim, porém, apenas o tempo nos dirá.

Perspectivas para o criptomercado

Em um contexto como esse, seguindo a mesma linha do texto sobre o DXY, e tendo em mente a sensibilidade do criptomercado dada a taxa de juros dos EUA, o principal benchmark do mercado de criptoativos, o Bitcoin, poderá seguir em trajetória de queda, com eventuais pullbacks revisitando níveis acima dos US$ 20.000 até que siga em direção a níveis abaixo dos US$ 18.000, pelo menos caso o cenário continue deteriorado.