Os formuladores de políticas do Banco Central Europeu veem uma alta de juros em julho como ainda possível após a reunião de quinta-feira, disseram fontes à Reuters na quinta-feira. Os formuladores de políticas do BCE apoiaram a decisão de quinta-feira por unanimidade, acrescentaram as fontes, observando que elas divergem sobre os riscos.

Já segundo fontes da Bloomberg, há um consenso crescente no BCE para uma alta de 25 pontos base no terceiro trimestre.

A postura do BCE e seus desafios

Na manhã da quinta-feira (14), houve mais uma das reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central Europeu, onde a política monetária atual foi mantida, com as taxas de juros ainda em território negativo, com a mudança de que o programa de compra de ativos líquidos (APP) deve ser finalizado em meados do terceiro trimestre, para só então ser iniciado um possível ciclo de aumento das taxas de juros, assim como disse a presidente da instituição, Christine Lagarde, em coletiva de imprensa minutos após a reunião. Porém, fontes da Reuters, disseram que alguns formuladores de políticas do BCE veem uma alta da taxa básica de juros da zona do euro em julho ainda como possível, a magnitude desse aumento, seria algo da ordem de 25 pontos base (bps), assim como é previsto para acontecer logo após o fim do APP.

Lagarde deu ênfase nas palavras “flexibilidade” e “opcionalidade” quando confrontada com perguntas sobre os aumentos das taxas. Atualmente o grande desafio do BCE é administrar os choques que a economia da zona do euro vem sofrendo desde 2020, que levaram em uma alta histórica da inflação na zona do euro, alcançando o patamar dos 7,5% na leitura de março, impulsionada pelos altos preços da energia, agora com um fator de risco ainda maior, que é o desabastecimento, devido a dependência do gás russo e as sanções impostas a este país, em resposta à invasão na Ucrânia.

O grande temor dos formuladores de políticas do BCE é o de que uma postura mais agressiva ante a inflação, com aumentos de juros e corte de estímulos, possa culminar em um longo período de baixo crescimento, ou até mesmo em um estagflação (estagnação do crescimento com inflação elevada). Os comentários de Lagarde levemente ‘dovish’ foram impactaram positivamente o mercado europeu, com a maior parte das bolsas europeias fechando em alta na quinta-feira, com destaque para o DAX, que terminou a sessão em alta de 0,62%.

Gráfico DAX Index. Fonte: TradingView

O contraste em relação ao Federal Reserve

Ao mesmo tempo que acontecia a coletiva de imprensa do BCE, o presidente do Federal Reserve Bank de Nova York e membro do FOMC, John Williams, em tom hawkish, se juntava ao grupo de membros do FED (BC dos EUA), que suportam um aumento de 50 bps, além do anúncio do início da redução do balanço patrimonial banco, já na próxima reunião do conselho de política monetária, que deve acontecer em maio.

Apesar da menor exposição à economia russa e a resiliência na recuperação da crise do COVID, além de um mercado de trabalho extremamente forte e dinâmico, com a economia dos EUA praticamente em pleno emprego. Quando comparamos as economias da zona do euro e a norte-americana, os EUA estão atualmente no maior nível de inflação desde os anos 80, com a inflação tomando rumos alarmantes para o FED, com indícios de indexação dos preços da economia (vistos por exemplo, no crescimento mensal do salários nominais), o que implica em uma inflação levemente mais “difícil” de ser combatida, dado o componente inercial mais persistente.

As falas de Williams que confirmam a perspectiva cada vez mais ‘hawkish’ dos formuladores de políticas do FED, o que trouxe temores às bolsas, com o S&P 500 abrindo em uma leve alta na quinta-feira e momentos após, devolvendo os ganhos e ficando no vermelho, às 13:49 o S&P caia cerca de 0,80%. Porém, é importante observar o índice Nasdaq, que lista grandes empresas de tecnologia, e por essas serem muito sensíveis as variações nas taxas de juros, qualquer expectativa de aumento da taxa básica norte-americana, tende a causar queda, dado o aumento dos custos de empréstimos e financiamentos para futuros projetos. Às 13:49, o índice Nasdaq caia cerca de 1,70%.

Gráfico US 100 CFD. Fonte: TradingView

E o criptomercado?

Dada a correlação entre o mercado acionário dos EUA e as ‘cryptos’, em virtude da presença do capital institucional nas mesmas, o Bitcoin acabou caindo abaixo dos 40 mil dólares, apresentando uma desvalorização de cerca de 3,23% no gráfico diário. Um maior aperto monetário em uma economia central como a norte-americana tende a impactar negativamente a cotação de ativos de risco, dada a perspectiva de retirada de liquidez, uma vez que os investidores começam a enxergar oportunidades em investimentos na renda fixa dos EUA, dada o baixo risco. Para exemplificar tal fenômeno, o U.S Treasury bond de 10 anos, às 14:06, subia cerca de 4% na sessão da quinta-feira.

Apesar do BCE ser extremamente importante para o mercado europeu, quando o colocamos na balança com o Federal Reserve, pelo fato de o segundo ser o Banco Central da maior economia do mundo e possuir também o maior mercado financeiro deste, as decisões do FED sobrepõem as dos BCE, em termos de relativa importância, portanto, a política monetária dos Estados Unidos acaba sendo um das principais variáveis determinantes nos preços da cryptos (até então).

É necessário prudência e uma boa gestão de risco por parte do investidor, uma vez que, o cenário aponta para uma alta volatilidade até que o mercado precifique os eventos geopolíticos e os futuros movimentos na política monetária dos EUA.

Gráfico Bitcoin / TetherUS. Fonte: TradingView

Kleiton Luna • Analista Yellow Crypto