Antes de iniciar o texto propriamente dito, é necessário que o leitor tenha em mente de que isso é apenas uma tese e que isso não é necessariamente a norma para o futuro.

O S&P 500 recentemente consolidou-se no suporte da região dos 3600 pontos, enquanto os investidores começam a levar cada vez mais a sério o Fed e sua conduta extremamente agressiva contra a inflação. A atual região em que se encontra o principal índice da bolsa americana foi decisiva no fim de 2020 para o índice atingir sua alta histórica de 4800 pontos. Porém, a falta de fôlego dos ursos enquanto o RSI sugere que o ativo atingiu níveis de sobrevenda no gráfico diário, em paralelo com a confirmação de um duplo fundo no mesmo time frame poderá levar o índice de volta a região dos 4000 pontos formando assim um triângulo descendente com um alvo catastrófico na região dos 2500 pontos, o que representaria uma queda de mais de 30% do índice. Evidentemente que o movimento de queda não necessariamente será dessa ordem.

Nesse cenário, os fundamentos para a queda poderiam estar ligados a continuação das pressões inflacionárias nos EUA enquanto o BC americano continua lutando contra a inflação, empurrando cada vez mais para a frente o pico de elevação da taxa básica de juros norte-americana. Como já escrevi sobre no blog anteriormente, o núcleo da inflação norte-americana surpreendeu negativamente em agosto e isso motivou o Fed a alterar seus planos para uma elevação de 75 bps na última reunião do FOMC, o aumento do núcleo da inflação é um grande sinalizador de disseminação do fenômeno inflacionário sobre toda a economia, pois ele exclui os preços voláteis de seu cálculo. Os relatórios do BLS não abordam de maneira clara o canal de transmissão dos salários sobre a inflação mas isso é trivial e simples de imaginar.

Quanto mais apertado é o mercado de trabalho, no sentindo de que a demanda por trabalho é maior do que é a oferta (atual cenário dos EUA), maior será o preço do trabalho (salário) e consequentemente, maiores serão as pressões sobre o nível de preço, uma vez que os trabalhadores agora relativamente mais ricos se deparam com um maior poder de compra e podem consumir mais bens e serviços. Indicadores com os pedidos iniciais de seguro-desemprego (atualizado semanalmente) tem batido as expectativas do mercado, demonstrando que o mercado de trabalho dos EUA pode estar prestes a ficar cada vez mais aquecido em um cenário totalmente adverso ao mesmo.

Um gatilho para uma queda dessa magnitude no mercado acionário norte-americano poderia estar ligado a um choque de juros ao estilo Paul Volcker nos anos 80, caso os dirigentes do Fed entendam que a inflação saiu do controle, a pergunta é? Será que Powell e seus colegas teriam a mesma coragem? Sabemos que a conjuntura macroeconômica e geopolítica é totalmente diferente daquela época. Além disso, apesar de os instrumentos de política econômica hoje serem relativamente mais sofisticados, devemos rememorar que, as economias estão infinitamente mais integradas do que naquela época e o nível de endividamento dos EUA também é maior (e indexado a taxa básica de juros), pondo em dúvida a tese de um forte choque de juros.

S&P 500 deverá cair mais, mas quando? e qual o impacto sobre o Bitcoin? Um modelo econométrico para o Bitcoin poderá te responder

Tentar prever os preços do criptoativos e ativos voláteis em geral via métodos econométricos não é uma tarefa fácil, porém, me aventurei em estimar um modelo simples e parcimonioso sem muitos critérios com uma série temporal do preço do Bitcoin. O modelo sugere que devemos atingir um fundo no fim de 2022 e início de 2023, levando em consideração que o Fed deverá seguir com a orientação de elevar as taxas até um patamar de 4,5% até o fim desse ano e posteriormente seguir realizando pequenos aumentos. O S&P 500 também deverá atingir um fundo ao mesmo passo que o Bitcoin, dada alta correlação entre ambos.

Mais uma vez devo chamar a atenção para o fato de se tratar de um modelo, não necessariamente estaremos diante desse cenário, uma vez que, os agentes tendem a se antecipar aos movimentos da política monetária, dada a disponibilidade de informações.